Caracterizada por um excesso vertical da região anterior da maxila e/ ou uma sobre-erupção dos dentes dessa região, a mordida profunda, também chamada de sobremordida exagerada, sobremordida profunda ou trespasse vertical aumentado, possui características que devem ser observadas para o correto diagnóstico do tratamento desse tipo de má-oclusão. Conforme Marcio Rodrigues de Almeida, mestre, doutor e pós-doutor em Ortodontia pela Faculdade de Odontologia de Bauru, USP, professor adjunto do Programa de Pós-graduação (mestrado) em Ortodontia da Universidade Norte do Paraná – Unopar – Campus Londrina/ PR, a mordida profunda caracterizase por apresentar um trespasse vertical acentuado entre os dentes anteriores (Almeida et al).
“Esta situação”, explica Almeida, “acomete jovens e adultos e pode resultar da irrupção excessiva dos incisivos superiores ou inferiores, da falta de desenvolvimento vertical dentoalveolar posterior e da deficiência esquelética anterior vertical. A sobremordida que apresenta um erro esquelético, tipicamente é conhecida como Síndrome da face curta (hipodivergente), predominando um maior crescimento da altura facial posterior sobre a anterior”.
De acordo com Almeida, ainda, o estudo, por meio de implantes proposto por Björn clarificou o crescimento maxilomandibular vertical em pacientes hipodivergentes, que foram acompanhados longitudinalmente por seis anos. “Evidenciou que o crescimento condilar se expressa para cima e para anterior e a direção de irrupção dos dentes inferiores assume um padrão mesial, denotando um giro no sentido anti-horário da mandíbula. Por outro lado, quando o maior componente envolvido for dentoalveolar, os dentes ântero-inferiores podem estar envolvidos, assim como os molares inferiores. A tipificação do padrão de crescimento craniofacial do paciente com sobremordida, bem como a má-oclusão são, deste modo, importantes fatores que devem ser reconhecidos pelo clínico. Além disso, o diagnóstico facial da análise do sorriso do paciente pode diferenciar quais dentes devem ser intruídos caso se adote este procedimento para a correção desta má-oclusão”, informa Almeida.
Segundo Paulo Eduardo Guedes Carvalho, mestre e doutor em Ortodontia pela USP/Bauru e professor adjunto do curso de Mestrado em Ortodontia da Unicid, a sobremordida profunda representa um desafio ao ortodontista, desde seu diagnóstico, passando por seu planejamento e correção, até alcançar importante relação com a estabilidade da correção após o fim do tratamento ortodôntico. “Certamente, um diagnóstico preciso mostra-se fundamental para viabilizar o sucesso nas demais etapas da busca por uma sobremordida adequada. Acredito que um aspecto primário está em se identificar, por meio de uma avaliação clínica da oclusão, em qual dos arcos há alteração, se no arco inferior, no superior ou em ambos, possibilitando uma correção ortodôntica onde realmente localiza-se o problema”, pondera.
Carvalho lembra que a relação entre a posição vertical dos incisivos superiores e o contorno labial, a ser observado clínica e cefalometricamente, é um fator bastante relevante ao diagnóstico da sobremordida, representando o dado principal na definição entre uma mecânica de intrusão anterior, de extrusão posterior ou combinada. “A posição vertical dos incisivos superiores ao término da correção será de extrema importância na estética do sorriso do paciente, quando se espera por uma exposição em repouso de até 2 mm destes dentes em relação ao contorno inferior do lábio superior. Quando esta exposição encontra-se aumentada, nos conduz a uma abordagem ortodôntica com intrusão do segmento anterior, enquanto uma relação vertical adequada entre incisivo superior e contorno labial nos permite a utilização de mecânicas extrusivas posteriores”, acentua.
Para ele, outros fatores também devem ser avaliados no diagnóstico da mordida profunda. “A intensidade da má-oclusão tem de ser considerada, uma vez que trespasses verticais muito severos podem apresentar dificuldade de correção e um prognóstico inferior de estabilidade pós-tratamento. Fatores como o padrão esquelético e os aspectos musculares do paciente também são fundamentais. Uma vez que a mordida profunda costuma estar mais presente em pacientes com padrão facial horizontal e musculatura facial potente, a utilização exagerada de mecânicas extrusivas nos dentes posteriores pode acarretar maior instabilidade da correção no período póscontenção, quando os fatores da tipologia facial atuarão contra a manutenção da sobremordida normal, favorecendo uma possível recidiva. A idade do paciente também deve ser ponderada no diagnóstico, pois pacientes em crescimento mostram melhor adaptação facial à correção, favorecendo a estabilidade do tratamento”, esclarece Carvalho.
Alexander Macedo, mestre em Ortodontia e Ortopedia Facial pela Unicid e professor coordenador do curso de Especialização em Ortodontia do Instituto Vellini, reafirma que a consideração do padrão facial e a intensidade do trespasse vertical dos incisivos têm um papel importante na formulação do plano de tratamento e no prognóstico dos resultados a serem alcançados. “A inclinação axial dos incisivos, a avaliação do nível de exposição gengival durante o sorriso e a relação em repouso do lábio superior com os incisivos superiores também devem ser cuidadosamente avaliadas para atingir bons resultados estéticos”, exemplifica.
"A intensidade da má-oclusão tem de ser considerada, uma vez que trespasses verticais muito severos podem apresentar dificuldade de correção e um prognóstico inferior de estabilidade pós-tratamento. Fatores como o padrão esquelético e os aspectos musculares do paciente também são fundamentais. Uma vez que a mordida profunda costuma estar mais presente em pacientes com padrão facial horizontal e musculatura facial potente, a utilização exagerada de mecânicas extrusivas nos dentes posteriores pode acarretar maior instabilidade da correção no período pós-contenção, quando os fatores da tipologia facial atuarão contra a manutenção da sobremordida normal, favorecendo uma possível recidiva."
E mais adiante continua: “nesta avaliação estética do sorriso, os lábios superiores devem repousar na margem gengival dos incisivos centrais superiores ou expor até 3 mm dos dentes. A idade e o sexo do paciente também devem ser levados em consideração, já que conforme o avanço da idade, o lábio superior perde a tonicidade e, consequentemente, o paciente apresenta menor exposição dos dentes superiores e, em relação ao sexo, as mulheres tendem a ter o sorriso mais alto do que os homens”, adverte Macedo.