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Diagnóstico precoce da anquilose evita problemas na dentição permanente
AS ANOMALIAS DE ERUPÇÃO APRESENTAM-SE, GERALMENTE, NA DENTIÇÃO DECÍDUA E DEVEM SER DIAGNOSTICADAS E TRATADAS COM RAPIDEZ, VISANDO UMA DENTIÇÃO PERMANENTE MAIS SEGURA E SEM PROBLEMAS DE MÁ-OCLUSÃO.
Coordenação de conteúdo: Alexander Macedo Colaboração na matéria: Ana Carla Raphaelli Nahás-Scocate e Ricardo De Nardi Fonoff
Manter e preservar uma dentição decídua plena é fator fundamental para evitar alterações na dentição permanente, como a má-oclusão. Assim, o cirurgiãodentista deve estar atento aos problemas de anquilose, uma das anomalias de erupção mais frequente e também a que mais dúvidas suscita nos profissionais de Odontologia quanto ao seu diagnóstico e tratamento. Conhecer sua etiologia e a melhor conduta a ser adotada são fatores essenciais para tratar essa patologia.
Vários são os termos encontrados na literatura para definir a presença de um dente decíduo que apresenta sua superfície oclusal abaixo da dos dentes adjacentes, como por exemplo, anquilose, infraoclusão, impacção e submersão. Ricardo De Nardi Fonoff, mestre e doutor pela Universidade de São Paulo, coordenador do Curso de Cirurgia em Odontopediatria e professor do Curso de Especialização em Odontopediatria da Fundecto-Fousp, define a anquilose dentária como a fusão anatômica do cemento ou da dentina radicular ao osso alveolar. “Trata-se de uma patologia histológica que leva à condição clínica de infraoclusão ou submersão do dente envolvido”, explica, ressaltando a existência de teorias que sustentam seu aparecimento. Estas seriam:
a. Teoria do distúrbio do metabolismo local: qualquer causa que resulte em desequilíbrio no processo da reabsorção radicular e/ou deposição óssea durante a rizólise dos dentes decíduos.
b. Teoria do trauma: relaciona-se com um trauma prévio que lesiona o ligamento periodontal, tais como reimplante dental ou oclusão traumática.
c. Teoria genética: baseada em tendência familiar, com caráter genético. “Outros fatores também são propospropostos para explicar essa patologia: agenesia do sucessor permanente, infecções periapicais, pressões no arco dentário e distúrbios sistêmicos”, acrescenta Fonoff.
PREVALÊNCIA E DIAGNÓSTICO
Convém destacar que o manejo de dentes decíduos anquilosados pode se constituir em um dilema para o clínicogeral e para o especialista em Ortodontia, assim, é fundamental conhecer sua prevalência e seu diagnóstico correto. De acordo com Fonoff, ela é variável na população, mas pode ser considerada uma anomalia frequente. “É mais comum em molares decíduos inferiores, raramente ocorrendo em dentes anteriores. O diagnóstico é realizado através de sinais clínicos, auxiliados pelas características radiográficas. No exame clínico, o dente encontra-se com a superfície abaixo do plano oclusal dos dentes vizinhos. Além disso, apresenta um som característico à percussão e à perda de mobilidade quando comparado aos dentes adjacentes”, informa.
Embora a dentição decídua seja a mais atingida pela anquilose, a dentição permanente também pode ser acometida por essa anomalia. Conforme Ana Carla Raphaelli Nahás-Scocate, professora associada dos Programas de Graduação e Pós-graduação em Ortodontia da Universidade Cidade de São Paulo – Unicid, o diagnóstico de dentes anquilosados é geralmente estabelecido pela avaliação clínica. “De acordo com Mullally et al (1995), embora o diagnóstico clínico possa ser realizado pela condição de infraoclusão, percussão e teste de mobilidade, às vezes, a ausência de movimentação ortodôntica pode confi rmar o seu diagnóstico”, cita Ana Carla.
Segundo ela, ainda, em teoria, as radiografi as periapicais exibem áreas de interrupção do ligamento periodontal (junção do cemento radicular ao osso alveolar), confi rmando a anomalia. “No entanto, o diagnóstico por meio da radiografia dentária é difícil, pois as áreas de anquilose são muito pequenas, frequentemente localizadas na raiz, e invisíveis em imagens 2D. Resumidamente, os procedimentos de diagnóstico para dentes permanentes anquilosados incluem: testes de percussão; ausência de mobilidade dentária; infraoclusão dentária (sinal clínico confi ável de anquilose); inabilidade do dente em responder às forças ortodônticas”, enumera Ana Carla.
CLASSIFICAÇÃO DE SEVERIDADE
A manutenção dos dentes decíduos em condições anatomofuncionais até a época de sua esfolição fisiológica é um fator de grande importância para a correta erupção dos dentes permanentes sucessores. Além disso, há uma classificação descrita para defi nir a severidade das alterações nos casos de dentes decíduos submersos.
A classificação da infraoclusão, conforme Fonoff, está baseada na distância da superfície do elemento anquilosado ao plano oclusal, apresentando-se da seguinte forma:
• Estágio leve: a superfície oclusal está aproximadamente 1 mm aquém da oclusal dos dentes adjacentes.
• Estágio moderado: a superfície oclusal apresenta-se ao nível do ponto de contato dos dentes vizinhos.
• Estágio severo: a superfície oclusal está à altura ou abaixo do tecido gengival.
Um dente submerso ou anquilosado nos dentes adjacentes, periodonto e oclusão pode ocasionar graves consequências. As principais, conforme Fonoff, são: “inclinação dos dentes adjacentes; perda de espaço no arco para o sucessor permanente; mordida aberta posterior com interposição lingual; defi ciência na mastigação; aprofundamento da curva de Spee; retenção prolongada do dente decíduo; dificuldade de erupção do permanente sucessor; aumento do risco de cárie e doença periodontal do dente envolvido.
Para Ana Carla, as consequências da infraoclusão dentária incluem: inclinação dos dentes adjacentes; supraerupção dos dentes antagonistas com a presença de recessão gengival, podendo também interferir nos movimentos de balanceio; desvio da linha média, quando da anquilose unilateral; diminuição do comprimento do arco; falta de desenvolvimento da área alveolar envolvida (não há crescimento vertical dos processos alveolares na região acometida).
“Defeitos ósseos verticais podem ser visualizados nas regiões mesial e distal, por meio das radiografi as periapicais. Adicionalmente, o risco à cárie e à doença periodontal nos dentes adjacentes, pela dificuldade de higienização e impacção alimentar, também são consequências desta anomalia. Estas consequências podem desencadear problemas em estética e função, comprometendo, por exemplo, a própria função mastigatória”, completa Ana Carla.
TRATAMENTO
Após o diagnóstico de anquilose do
dente decíduo é preciso ater-se às possibilidades
de tratamento, como aponta
Fonoff: “pode ser conservador ou cirúrgico
e depende da idade da criança e do estágio
de desenvolvimento do permanente
sucessor; além do grau de infraoclusão
e do comprometimento para a oclusão
do paciente. Nos casos de anquilose
leve, o tratamento deve ser conservador,
aguardando o desenvolvimento do germe
do permanente e a esfoliação fisiológica
do dente anquilosado. Porém, quando
houver estágio severo da infraoclusão
associado à reabsorção radicular lenta, o
tratamento de escolha é a exodontia com
manutenção de espaço”, afirma.
No caso do sucessor permanente estar em início de desenvolvimento e o dente anquilosado em estágio leve ou moderado, Fonoff afirma ser possível realizar o aumento da coroa clínica do dente decíduo utilizando resina composta (técnica direta ou indireta). “Desta forma, a altura cérvico-oclusal e os contatos proximais são restabelecidos, devolvendo a função e estimulando a esfoliação fi siológica do dente envolvido. Entretanto, se o sucessor permanente apresentar 2/3 de formação radicular, a exodontia do dente decíduo deve ser realizada”, orienta.
Conforme Fonoff, quando o elemento permanente sucessor está ausente, o dente anquilosado deve ser mantido na cavidade bucal o máximo possível, recebendo acompanhamento clínico e radiográfi co. “Para tal, o estágio de infraoclusão deve ser leve ou moderado e a reabsorção radicular lenta. Dependendo do tipo de oclusão do paciente, planeja-se, futuramente, a instalação de uma prótese, colocação de um implante ou fechamento ortodôntico do espaço”, pondera, acrescentando que “a severidade da má-oclusão relacionada à anquilose dentária depende do estágio de desenvolvimento quando da sua ocorrência, da quantidade de crescimento remanescente e da época do tratamento instituído”.
Já Ana Carla destaca cinco abordagens de tratamento da anquilose de dentes permanentes, dependendo da severidade e da complexidade da anomalia:
1. Acompanhamento clínico: opção quando a infraoclusão é suave, com observação periódica do dente. Na anquilose dentária, quando ocorre tardiamente exibindo suave infraoclusão, o dente permanente pode ser mantido sem problemas periodontais futuros.
2. Luxação dentária e intervenção ortodôntica: abordagem aceitável em alguns casos, embora existam fatores de riscos como fraturas ósseas ou radiculares, recorrência da anquilose e necessidade de tratamento endodôntico. Esta alternativa pode ser considerada quando o diagnóstico é realizado precocemente, em situações de suave infraoclusão.
3. Reconstrução protética: possibilidade de tratamento quando a infraoclusão for menor que 5 mm.
4. Osteotomia segmentada: procedimento cirúrgico no qual o osso alveolar, incluindo o dente afetado, é seccionado e reposicionado, com maior indicação para a região anterior maxilar.
5. Extração dentária: opção de tratamento em casos de severa infraoclusão e inclinação de dentes adjacentes, contraindicando procedimentos restauradores. No entanto, esta abordagem terapêutica pode resultar em acentuados defeitos ósseos (defeitos alveolares verticais e horizontais), dificultando a reconstrução protética futura (ex: colocação de implantes dentários), ou mesmo, impossibilitando-a, quando o dente é extraído após ter sido mantido durante o período de crescimento. Às vezes, nestas situações, são necessários procedimentos de regeneração óssea, melhorando a arquitetura óssea local.
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